Metano versus gás carbônico: cientistas se dividem

Jeff-Swensen

Durante muito tempo os climatólogos se questionaram se as emissões humanas de gases do efeito estufa são de fato um problema e concluíram que estamos correndo alguns riscos graves. No entanto, ainda há debates vigorosos sobre até que ponto o aquecimento global irá se agravar e como combatê-lo.

Um dos maiores desafios é determinar o nível de esforço necessário para deter vazamentos de gás metano na atmosfera. Essa questão pode parecer obscura, mas os vazamentos poderão ter um efeito enorme sobre o clima atual. Nos Estados Unidos, alguns acadêmicos reclamam que o plano do presidente Obama para aumentar o uso de gás natural, cujo principal componente é o metano, prejudicará o país, pois essa suposta solução para a mudança climática será pior que a queima de carvão.

Essa reclamação é plausível?

Os fatos científicos básicos são bem claros. O principal gás de efeito estufa emitido por humanos na atmosfera é o gás carbônico, que se deve à queima de combustíveis fósseis. Em segundo lugar fica o metano, que provém de diversas fontes. Ele é liberado pela mineração de carvão; escapa quando poços são cavados para obter petróleo ou gás natural; e vaza de gasodutos. Certas práticas agrícolas também liberam quantidades imensas de gás metano.

O metano é um gás de efeito estufa bem mais potente que o gás carbônico. Mas, ao contrário deste, o metano se decompõe rapidamente na atmosfera. Toda vez que alguém liga o interruptor de luz, fazendo mais carvão ser queimado e CO2 ser liberado, há uma leve alteração no clima da Terra por milhares de anos. Segundo cientistas, uma baforada de metano terá sua influência climática sentida durante poucas décadas.

“O metano é como uma ressaca que passa se a pessoa parar de beber”, disse Raymond T. Pierrehumbert, climatólogo na Universidade de Chicago. “O CO2 é mais parecido com a intoxicação por chumbo -ela é incurável e causa danos irreversíveis.”

Apesar da diferença, bilhões de dólares estão sendo gastos para controlar vazamentos de metano, algo que o doutor Pierrehumbert desaprova. Ele argumenta que o mundo precisa coordenar um esforço gigantesco para controlar o gás carbônico, o qual será muito mais danoso em longo prazo, e que o metano deveria ser ignorado até que o problema maior seja eliminado.

Cientistas com opinião oposta dizem que o aquecimento global já é um problema comprovado. Para eles, controlar agressivamente o metano ajudaria a retardar muito o aquecimento nas próximas décadas.
“Nosso êxito em controlar emissões de gás carbônico talvez faça pouca diferença para a temperatura nos próximos 40 anos”, disse Drew Shindell, climatólogo da Nasa.

Ele e outros cientistas têm feito alguns progressos para persuadir a ONU, o Departamento de Estado dos EUA e outras organizações a apoiarem esforços para controlar as emissões de metano.

E o que isso tem a ver com o plano climático do presidente? A administração Obama pretende reduzir as emissões de gás carbônico de usinas elétricas em 30%, a partir dos níveis de 2005, até 2030. Isso fará os Estados usarem muito mais gás natural para gerar energia elétrica -uma mudança considerada útil no combate ao aquecimento global, pois em uma usina elétrica a queima de gás natural emite cerca da metade do gás carbônico resultante da queima de carvão.

Especialistas dizem que é crucial não emitir CO2 na atmosfera, mesmo que isso obrigue a queimar mais gás. Os doutores Pierrehumbert e Shindell concordam em grande parte com esse ponto.

O problema maior é mais complexo. Se apenas um pouco da boa vontade política e do dinheiro estatal fosse disponibilizado para deter o aquecimento global, isso pesaria a favor do argumento do doutor Pierrehumbert para que, por ora, vazamentos de metano fiquem em segundo plano. O doutor Shindell concorda que o controle do metano não deve ser feito em detrimento do controle de CO2. Mas talvez haja uma saída para esse impasse.

A ideia seria prometer um controle mais agressivo do metano para retardar o aquecimento global em prol das pessoas que vivem hoje, junto com um controle agressivo do CO2 em benefício das futuras gerações. Se a perspectiva de benefícios climáticos em curto prazo também puder gerar um aumento significativo do apoio público às medidas de prazo mais longo, isso certamente penderia a favor do argumento do doutor Shindell.

 

(Fonte: Folha de S. Paulo)

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